segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Loucos e lúcidos daqui e dali

Foto: Pedro Rossi

Quando entramos no trem ele está lá, na última fila, encostado à janela, com três cadeiras vazias ao seu redor. Vamos até o fundo, escolhemos as três cadeiras vazias do lado oposto, onde um jovem espanhol lê e segue lendo um livro em japonês, sem levantar os olhos.

Karen é a primeira a notar a garrafinha PET com um líquido amarelado que ele tem na mão. Deve ser rum, penso. Que eu saiba ainda não se vende cachaça por aqui. Não demora muito e ele começa a conversar baixinho, fazendo gestos e expressões como se a um interlocutor real.

As três cadeiras continuam vazias. A seus pés, uma mochila puída e uma sacola plástica com pertences pessoais. Está limpo, veste-se com simplicidade e calça um par de tênis branquíssimos. A pele morena e lustrosa realça a desesperança no olhar sem brilho. De tempos em tempos, pega a garrafinha da sacola e toma uns goles. Lança um olhar demorado sobre o Mediterrâneo. E retoma o diálogo em voz baixa com seu interlocutor imaginário.

Ouvimos quando ele enumera, quase em silêncio, os pueblos por onde o trem irá passar, tropeçando na sequência, refazendo a linha, errando e retomando.

- Dá igual. Na próxima semana eu volto lá.

Cala-se por um instante quando o jovem de traços indígenas, com fones de ouvido e um boné espalhafatoso, senta-se à sua frente. Não se olham. O rapaz fica por ali uns 10 minutos, e antes de sair nota que o homem tira os olhos da janela e volta-os para nós. Está sorrindo e desenha no ar com gestos largos.

- Me encanta saber que um computador não pode mudar certas coisas!

Vira-se para a janela, e de novo para nós. Fala pausadamente.

- O dia é dia, a noite é noite, o sol nasce e se põe, e nenhuma modernidade pode mudar isso. - A palavra sai queimando de sua boca.

Nos entreolhamos, desconfortáveis, eu, Pedro e Karen. Uma nuvem encobre o sol que nos convida à praia. Ele segue filosofando.

- Se essas coisas pudessem ser mudadas, o mundo acabaria. Não se poderia plantar, não se poderia comer. Não haveria batatas, tomates, alfaces, não haveria nada.

Tira os olhos do vazio e os fixa, verdes, em mim.

- Diga-me: pode-se comer modernidades? Nãããão. Comemos batatas, tomates, alfaces. Verdad, señora?

É o segundo espanhol que me toma espontaneamente como interlocutora em 18 dias por aqui. Seu nome é Xavier. Fala com tranqüilidade e sem sinais de embriaguez. Seu discurso ganha sentido e coerência a cada frase. Não olha para nós, mas fala para nós.

- Faltam dois meses para eu completar 52 anos. Trabalhei duro por 30 anos! E agora querem que eu espere mais dois meses para ter os meus direitos! Enquanto isso, o que sou? Nada!

Inquieta-se.

- Querem que eu não lute? Pois luto! Querem que eu não ande livremente por meu país? Ora, um pouco de respeito, façam-me o favor!

Irradia uma revolta que incomoda a vizinhança. A moça sentada um banco à frente muda de lugar. O espanhol ao meu lado deixa o livro japonês por uns segundos. Karen está muda. Pedro hesita entre olhar e não olhar. Só eu, meio que encantada, não consigo tirar os olhos do homem mirrado que vai virando um gigante à minha frente.

Sua voz é o único som possível no vagão.

- Sou espanhol e catalão. Veja bem. Se está sentado ao meu lado um homem de Andaluzia, então somos dois espanhóis viajando juntos, dois homens do mesmo país, apenas de regiões diferentes. Dois espanhóis.

O silêncio é absoluto ao seu redor.

- Falo perfeitamente o catalão! - E desanda a discursar em seu idioma natal. - Francês? Bonjour, madamme. S’il vous plaît, monsieur. Italiano? Io parlo italiano, madonna.

Interrompe a demonstração e firma o olhar no banco vazio.

- Mas isto aqui é a Espanha, madre mía!

Luta contra um exército invisível. Respira fundo, olha pela janela. Volta-se de novo para o banco vazio, com ar de deboche.

- Quer dizer, isto aqui era a Espanha, agora é a Europa! E fazem conosco o mesmo que os italianos, os ingleses, os franceses fazem com os romenos, os africanos, os latinos... e até com os espanhóis: ‘Vocês não têm mais nada a nos oferecer? Então vão-se embora daqui!’

Está exausto. Cola os olhos à janela, por onde seguem desfilando as praias da Costa Brava, ao norte de Barcelona.

- Crise? Que crise? Praias cada vez mais abarrotadas, carros cada vez mais modernos. Não há crise, señora, o que há são modernidades!

Entendo que também é estrangeiro meu segundo espanhol. Estrangeiro em seu próprio país, onde não mais se reconhece – ou é reconhecido – como cidadão.

Perplexa e muda, levanto-me para desembarcar. Xavier, elegante desde o início, me dirige um olhar doce e pede desculpas pelo incômodo. Desejo-lhe boa sorte e ainda o ouço dizer, antes de soltar uma gargalhada:

- Por aqui viveu um cara mais louco do que eu. Joder! Chamava-se Salvador Dali.


Salvador Dali nasceu em Figueres, 140 km ao norte de Barcelona, e passou boa parte da vida no pueblo pesqueiro de Cadaqués.

8 comentários:

  1. "A pele morena e lustrosa realça a desesperança no olhar sem brilho."

    tive sorte de ter presenciado nesta viagem, de apenas uma hora, o espírito deste personagem, tão "forte" e tão "fraco" ao mesmo tempo..

    o post está de lamber os beiços!

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  2. Ana..passei o fim de semana sem tocar no computador. Hoje me deparei com seus posts..você não imagina como faz bem acordar pela manhã e ler suas histórias. Beijos querida

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  3. Meninos e meninas, assim vocês me deixam... muito feliz! Afinal de contas, o blog é pra vocês.
    Beijo.

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  4. Anamaria, querida!
    Digamos que você me inspirou para criar o blog. Na verdade, achei que de fato é uma idéia muito interessante para que as pessoas possam saber como andam as coisas por essas bandas daí.
    Como estão as coisas ai? Gostando do curso? Vi que já encontrou um lugar para ficar. É legal? Espero que sim! Eu não sei se havia lhe dito, mas pretendo ficar apenas 3 meses em Sevilla, que é a duração do curso, depois serão estágios que posso fazer em qualquer lugar do país. E lógico que Barcelona é uma das minhas metas, já que nos estagios terei alojamento de graça.
    Dê noticias daí!
    Chego em Sevilla dia 11!!!
    Muitos beijosssss

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  5. Adorei o texto. Uma viagem dentro da viagem - meio incômoda, muito fascinante, meio automaticamente nos forçando a olhar para nós mesmos, né?

    Beijos e espero ler muitas outras descobertas!
    !Buen viaje! Siempre.

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  6. De la forma en que está escrito y gracias a la ayuda del traductor, me hiciste sentir, con tus palabras, como si lo hubiese vivido "ojo a ojo".
    Ahora si voy a seguir tranquilamente tus post en el blog.
    Gracias!!!! =)

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  7. Ana, concordo com a Alessandra: você não imagina como faz bem ler suas histórias!
    E com a Ceci: como si lo hubiese vivido "ojo a ojo", mas com um sabor especial, temperado pela sua emoção.
    Bão demais, minha irmã.
    Beijos. Érica.

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