sábado, 5 de setembro de 2009

De silêncios faz-se o amor

Foto Jean-Paul Kieffer / Samsa Film

Adriana comentou dois posts abaixo e não resisti: fui buscar na rede Uma Relação Pornográfica (Une liaison pornographique, no original em francês), e aqui estou. Foi lá que conheci Sergi López, de Mapa de los sonidos de Tokio, dez anos atrás. Ele tinha uns 30 anos e já não deixava dúvida sobre seu talento.

Mas não voltei aqui para falar do ator espanhol, aliás um belíssimo exemplar. O que me fez sentar em frente à tela numa manhã de sábado de clima ameno foi a lembrança de um filme que representou, para mim, uma possibilidade de reconhecimento da natureza do amor – de como eu o sinto e vivo – longe do romantismo empastelado e irreal das fórmulas hollywoodianas.

Uma Relação Pornográfica é erroneamente classificado como um filme pornô. O título em inglês, An Affair of Love, é mais adequado no sentido lato do termo. Mas para quem entende o amor como algo que não aceita limites, o depoimento do diretor Fréderic Fonteyne ao jornalista Luiz Carlos Merten é mais que esclarecedor. Filmo pessoas que fazem amor e conversam, e é nesse sentido que a relação se torna pornográfica; é obscena porque é completamente íntima; e o sexo é tão importante como a palavra.”



Os personagens são simplesmente Ele e Ela. Um homem e uma mulher que se conhecem por meio de classificados de sexo e passam a se encontrar para realizar suas fantasias. Acompanhamos seus encontros semanais num café, onde falam sobre tudo menos sexo, e seguimos com eles até a porta do quarto de hotel. Mas só até a porta.

Não sabemos o que se passa lá dentro até a metade do filme. E quando a porta finalmente se abre somos surpreendidos pela revelação de um caso de amor real, humano e palpável, com prazeres e dores dividindo em silêncio a intimidade da cama, em contraponto ao escudo de palavras com o qual protegem seus sentimentos nos encontros no café.

O olhar intenso e doce de Sergi López e a delicada transparência de Nathalie Baye nos transportam a um lugar dentro de nós onde o amor apenas é - obscenamente nu e absolutamente assustador.

Uma Relação Pornográfica é um filme em que as palavras enganam, e estão ali para isso. Um filme que fala pelos silêncios, pelo não-dito.

E de quantos não-ditos, de quantos silêncios não é feito um amor?


Para treinar o catalão

Esse meu amigo Sérgio Básico descobre cada coisa...

Sons de Tóquio e da Catalunya

Fotos: David Coll Blanco

Hoje é sexta-feira e choveu em Barcelona, o que atrapalhou meus planos de ir a pé até a biblioteca que fica atrás da Ronda Guinardó. Então fui ao cinema. Cine Nàpols, aqui pertinho de casa. Ver o quê? Mapa de los sonidos de Tokio, da espanhola Isabel Coixet (Minha Vida sem Mim).

Bah! diria Karen, companheira de piso. Em catalão sem legendas? (Aliás, Karen não diria nada, ela fala catalão!). Vamos embora, Pedro, vou pedir meu dinheiro de volta. Me enganaram. Pedro, como bom escorpiano, me desafiou a ficar. Armei uma tromba e fiquei – sou do tipo que topa desafios.

Pedro dormiu mais da metade do filme. Eu não, ainda bem! Fiquei de olhos pregados na tela, tentando entender o que se passava e me deliciando com as magníficas imagens de Tóquio, uma das cidades mais fascinantes que já conheci.

Nada a ver com Lost in translation, de Sofia Coppola (que eu adoro!), embora eu estivesse totalmente lost na translation. Não posso falar com certeza, porque acho que entendi só metade do que ouvi – imagine atores japoneses falando em japonês e dublados em catalão! Mas de tudo o que entendi o que me tocou foi a idéia de que uma criatura pode se transformar, ou ser transformada, quando descobre “a chama” dentro de si. Aquela chama que é a razão – até então desconhecida - de ser, estar, existir. É o que acontece com a matadora japonesa (Rinko Kikuchi, de Babel). Lindíssima, aliás!

O filme é absolutamente feminino, mas não aquele feminino suave de Sofia Coppola. Sem perder a delicadeza - que aliás é a marca do filme, sobretudo no registro e no uso dos sons da cidade - Isabel Coixet mergulha nos claros e escuros da personagem, que ganha a vida destroçando peixes num frigorífico e dá à sua sombra o status de matadora de aluguel.

A pedra em seu caminho é o espanhol David (Sergi López, bueníssimo!), “encomenda” de um executivo cuja filha suicidou-se por causa dele. Uma pedra que muda o curso das águas, com direito a algumas das melhores cenas de sexo dos últimos tempos, num quarto que reproduz um vagão de metrô, num idílico Hotel Bastille, ao som de La vie em rose. Imperdível!

Bueno, cada um vê o que quer, e quando não se decifra completamente o texto fica ainda mais fácil. Melhor mesmo é assistir de novo - em espanhol, por supuesto.

Just in case, segunda-feira faço minha matrícula no curso de catalão para adultos. Grátis.

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Porque hoje é sexta-feira...

... e nem sempre a vida é dura.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Tem dias em que só mesmo uma canção...



PS: Puxo dos comentários a sugestão da Mari-Jô, "mais cool", com Diana Krall. Belíssima!

Babel mediterrânea

Imagens: Google Maps

Bater perna atrás de apartamento tem suas vantagens. Hoje, por exemplo, fiz duas viagens inesquecíveis, e num só dia!

A primeira pode ser descrita no espaço: oito quilômetros entre Gràcia e o Passeig del Born, indo e vindo por ruelas as mais improváveis, visitando um piso aqui outro ali, anotando telefones anunciados em plaquetas, e – é claro - conferindo as últimas rebajas, que ninguém é de ferro.

Mas essa distância também pode ser medida no tempo. Séculos de desenvolvimento separam a bonança e o requinte de Gràcia da obscuridade e quase miséria de algumas ruazinhas da Ribeira, na Cidade Velha, a despeito da antiguidade dos edifícios de ambos os bairros.

E, se quisermos ir mais longe, há uma distância geopolítica entre esses dois mundos. Gràcia é quase que um reduto catalão, mais que espanhol. Por suas ruas limpas e praças arborizadas se vêem, a qualquer hora, velhinhos empurrando carrinhos de supermercado e crianças bem vestidas brincando sem maiores problemas.

Sem falar no magnífico Passeig de Gràcia, larga avenida que atravessa boa parte do bairro e concentra, em poucos quilômetros, os maiores bancos, as melhores grifes e duas das mais importantes criações de Gaudi, a Casa Milà (La Pedrera) e a Casa Batlló.

A Praça Catalunya é o ponto de encontro entre a tranquilidade de Gràcia e a mais completa anarquia étnica e urbana da Cidade Velha. Ampla e ensolarada, a praça é, para mim, o coração de Barcelona, democraticamente compartilhada por turistas endinheirados, músicos de rua, lambe-lambes da era digital, mendigos, estudantes, trabalhadores, vadios, brancos, negros, amarelos, vermelhos e o que mais se puder imaginar. Além de umas dezenas de pombos, é claro.

Ali começou o segundo trecho da primeira viagem. Eram 6 horas da tarde e eu deveria estar às 8 da noite no Passeig del Born, para ver os dois últimos apartamentos do dia. Tudo bem, eu poderia pegar a Via Laietana e baixar em linha reta, levaria meia hora, mas quem disse que consegui? Me embrenhei pelo labirinto de ruelas do Bairro Gótico, dando voltas e mais voltas, cruzei a Laietana e acabei no labirinto de ruelas da Ribeira, onde eu quase fui morar.

É simplesmente irresistível circular por ali sem olhar para o relógio, tamanha a diversidade de tribos, cheiros, visuais, fachadas, recantos, pichações, mercadorias, bares, forns de pa, caminhos e descaminhos. Uma criatura simplesmente se perde entre tantas possibilidades. E que delícia perder-se num mundo tão vasto!

Mas, como diz o poeta Gil, “é preciso estar atento e forte”, porque a coisa nem sempre é bonita. Há sujeira e bosta de cachorro, becos sombrios, figuras assustadoras, prédios se desmanchando, umidade, claros e escuros e um cheiro de esgoto que fica impregnado em suas narinas.

E foi bem no meio dessa viagem, antes de chegar ao destino final, que aconteceu, como que por milagre, a segunda viagem do dia – a viagem dentro da viagem. Foi como fazer um tour pelo Mediterrâneo – incluindo sul da Europa, norte da África e um pedaço do Oriente Médio – em 20 minutos a pé.

Eu já estava quase cruzando a Carrer de la Princesa, fronteira entre a Ribeira e o Born, quando desemboquei na Carrer dels Corders. Logo de cara me vi no meio de uma briga de jovens turcos. Um gritava – em turco! –, outro tentava reagir e o resto assistia impávido. Olhei para os lados em busca de um plano B, mas só consegui vislumbrar um grupo de homens árabes, turbantes e barbas brancas, confraternizando no fim de tarde na praça ao lado, sem dar a mínima para a questão turca.

Me fingi de morta e tentei passar sem ser vista, embora a probabilidade fosse pequena, pois eu era a única mulher num raio de 100 metros. Livre da confusão, reduzi o passo e comecei a olhar para os lados. Inacreditável! Kebabs dividindo porta com estúdio de hip hop, armazém islâmico, cabeleireiro francês, padaria catalã, loja de antiguidades marroquina, pizzaria italiana, tudo num só quarteirão, cada qual em sua língua nativa, uns usando vestes típicas, outros fumando coisas estranhas, e ninguém nem aí para o vizinho. Um Mediterrâneo democrático coberto por um céu de varais coloridos.

Saí dali meio tonta e quase perdi a hora da visita ao penúltimo apartamento do dia. Acabei a jornada numa creperia francesa que serve Cosmopolitan e Caipirinha de Ipioca, atendida por um garçom brasileiro e uma camarera uruguaia.

Não sei o que seria de mim sem o Google Maps!

Bônus

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Cantem comigo

Em Português bem claro...

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Curtas e grossas

I - Hoje não tem post. Estou pê da vida com o corretor FDP que me deu a péssima notícia pela manhã. “Tengo malas notícias, señora. O proprietário desistiu de alugar o piso.” Co-co-co-como? Que pasa? Em que país estamos? Por que diabos ele desistiu? “A mulher já tinha alugado para um amigo dela.” Sei. E o cara não sabia? Anunciou o apartamento em quatro sites sem saber o que a mulher estava aprontando? Manso. No mínimo.

A parte boa é que aprendi um monte de palavrões em espanhol. Não vou publicar, é claro, porque como já disse a Rosane Serro isto aqui é um blog família.

II - Bueno, comecei a buscar novamente. Cinco sites, vinte e cinco telefonemas, quatro visitas. Só hoje! Ribeira, Born, Barceloneta. Prédios quatrocentões, escadas estreitas, varais sobre nossas cabeças. Nada que preste. Tudo muito descuidado. E caro!

Por esses preços volto a buscar em Gràcia, onde os edifícios são mais arrumadinhos, as praças são arborizadas e as ruas são limpas. Família.

III - Para desestressar, nada melhor que um bom fogão! Cardápio do dia: cuscuz marroquino. Encontrei no BonPreu uma sêmola de trigo que já vem temperada com hortelã, azeite extra-virgem e suco de limão. Buenísima! Foi só fazer um cozido com carne e legumes, bem picante, y ya está! Se não ficou bom, a galera estava mesmo com fome, porque não sobrou nada.

IV - Volto amanhã. Ou não. Yo que sé?